Férias num hospital psiquiátrico.



Para ela a felicidade se resumia a dois pontos simples: trabalho e família. Trabalhava às vezes até 18h por dia e levava serviço para casa porque, além de viciada em trabalho, batalhava por uma promoção através do reconhecimento do seu trabalho. Sua vida era trabalho, respirava trabalho, era seu combustível diário. Dinheiro não era importante, era consequência. Seu ideal de vida financeira saudável era morar em uma casa confortável e espaçosa na qual pudesse receber os amigos, ter cachorros e onde seus futuros filhos pudessem ter liberdade, e não ter que se preocupar se teria condições de sanar as despesas mensais ou não. Até aquele momento, tudo caminhava para a realização de seus sonhos. A vida familiar e afetiva não ia muito bem, mas isso é assunto para outro capítulo.





Era esperado que, após tanta dedicação extrema, algo saísse errado. E saiu. Descobriu que havia adoecido contraindo uma lesão decorrente do trabalho, não poderia ser diferente. A princípio não levou muito a sério, relaxou porque imaginou que seriam apenas umas "férias forçadas fora de época" de no máximo uns 30 dias. Mas não foi isso que aconteceu. Os 30 dias se passaram e, depois deles, outros 30 infinitos dias e, quando se deu conta, mais de um ano havia se passado. 

Aos 32 anos e com os principais pilares da sua vida desmoronando veio a frustração, a decepção e a falta de expectativas. Absolutamente tudo estava dando errado e por mais que ela buscasse motivação para viver nada parecia fazer sentido. Pensava que se tivesse tido filhos ainda teria um motivo para continuar lutando, mas se lembrou com tristeza do aborto espontâneo inexplicado que acabou botando fim em todas suas expectativas. Até isso haviam tirado dela. 

No desespero acabou tentando se agarrando em qualquer coisa que pudesse lhe dar esperanças novamente e alguma motivação para viver, mas não encontrava. Quando encontrava, eram sempre mais decepções e frustrações que foram minando o pouco de energia que ainda lhe restava, pouco a pouco.

Casou-se novamente mas os problemas não cessaram, já estava doente. Suas limitações físicas e o ganho de peso acabaram por afundar ainda mais aquilo que ela pensava que não poderia piorar. Chegou ao seu limite humano. Arquitetava formas de como por um fim em sua vida. Tinha que parecer um acidente porque não queria que as pessoas a vissem como uma pessoa frágil e covarde que não lutou o suficiente, porque somente ela sabia quanta dor havia sentido, não queria decepcionar amigos e a família. Foram várias as madrugadas as quais, sob efeito de álcool e drogas, dirigiu seu carro em alta velocidade pelas avenidas de São Paulo. Atravessou as piores e mais perigosas rodovias serras de São Paulo e Rio de Janeiro inconsequentemente, chegou a perder os sentidos ao volante, mas nenhum arranhão sequer no seu carro. Alguém lá em cima talvez não achasse que fosse sua hora, era a única explicação plausível diante de tanta exposição à morte.  

Mas um dia um pequeno rastro de luz e esperança surgiu e ela correu atrás. Ainda assim não foi suficiente. Cada decepção era o gatilho para uma nova crise. Decidiu procurar ajuda médica e foi entupida de medicamentos que pareciam não fazer efeito e assim ela, por conta própria, aumentava a dose recomendada. Quando se deu conta estava tomando em um dia a dose prescrita para um mês. Sentia-se culpada mas o alívio da sua dor era mais importante do que as consequências. Ela só queria parar de sentir dor e, se não fosse cessando sua própria vida, precisava sentir-se fora de sintonia fugindo dos problemas, manter-se dopada o maior tempo possível. Os remédios lhe davam um sensação boa, não se importava com o que acontecia ao seu redor, sorria ingênua e alheia a tudo mas, na ausência deles, nos poucos momentos de lucidez, como (ex)dependente química sabia que aquele era um caminho sem volt,a sentia-se culpada e passou a se automutilar. 

Chegou ao fundo do poço quando começou a ter alucinações e a chantagear o marido com suicídio quando ele tentava controlar seus medicamentos. Não havia mais o que ele pudesse fazer a não ser procurar ajuda, e foi o que ele fez.

Os paramédicos do resgate chegaram. Ela estava deitada na cama, sem tomar banho e comer há dias, de pijama, descabelada e com o rosto inchado de tanto chorar. Tentaram convencê-la a acompanhá-los mas ela, doente, estava irredutível. Não havia outra saída para os paramédicos a não ser buscar reforço policial e assim o fizeram. Agora o apartamento era ocupado por homens e mulheres também fardados. Não havia diálogo amistoso ou psicologia que  a fizesse mudar de ideia, então só restava a aqueles profissionais a "chantagem"ou a foraç bruta nas formas da lei. Ela questionou se seria presa por desacato caso não obedecesse à ordem policial. Os policias alimentaram aquele medo pois sabiam que aquela era a única arma que a faria mudar de ideia. Ela saiu do apartamento de maca, amarrada, acompanhada de paramédicos e policiais, direto para a viatura de resgate, sob os olhares de vizinhos curiosos. Dentro da viatura ela já tinha uma certeza: não queria passar novamente por aquele vexame.

No hospital foi medicada e voltou para casa mas ainda assim sua dor não cessava. As mutilações aumentaram assim como seu desejo de colocar um ponto final na sua vida da única forma que conhecia: suicídio. Os remédios não faziam mais efeito. Uma noite chorou por horas e, pela primeira ou segunda vez teve consciência de que, caso não fizesse algo para si mesma, seu fim não poderia ser pior e isso fatalmente faria com que seus familiares e amigos sofressem ainda mais. A única consciência que tinha o tempo todo era que estava causando o sofrimento e isso a fazia sentir-se cada vez pior. Levantou-se da cama decidida a interromper esse ciclo e, aos prantos e muito assustada, pediu ao seu marido que a levasse ao pronto socorro psiquiátrico porque estava com medo de cometer um ato impensado, e assim foi internada numa clínica particular.

Nos primeiros dias não compreendia ao certo o que estava acontecendo, sentia-se confusa, com sono, acordava apenas para as refeições e o tempo todo pensava que parecia estar num sonho. Perdeu a referência, não sabia quem era e o que estava fazendo lá, a única coisa que desejava era acordar daquele pesadelo. Quando começou a reconquistar um pouco da sua lucidez passou a observar o mundo e as pessoas ao seu redor. Ouvia pessoas gritando, chorando, dormindo, pronunciado palavras sem sentido. Via pessoas nuas, de fralda e outras incapazes de controlar suas próprias fezes. Conheceu uma moça que há anos vivia lá agindo como se fosse uma princesa em seu quarto na torre. Outra que, perto dela, a fazia sentir-se a mais coerente e racional. O tempo todo haviam pessoas vagando atônitas de um lado para o outro com atitudes que não pareciam nada normais ou naturais. De vez em quando um enfermeiro abria a boca da moça sentada no banco de jardim com olhos parados e distantes, para fazer com que ela engolisse alguns comprimidos. Entrou no banheiro para vomitar, não havia fechadura ou trava. na porta. Foi quando se deu conta que estava numa clínica psiquiátrica e que aquele não era seu lugar. Seu objetivo agora era sair daquele lugar.

Diariamente, várias vezes ao dia, procurava o médico e lhe suplicava para que lhe tirasse de lá. Dizia que se ficasse lá apenas mais um dia, iria ficar pior do que aquelas pessoas e não queria. Tinha medo de sair pior do que entrou. Telefonava para sua família implorando para que viesse buscá-la e durante as visitas, chorava aflita e copiosamente quando tinham que partir. Os dias pareciam mais longos do que o normal. Ficou dividida entre manter-se lúcida ou dopada. Dopada os dias pareciam melhores, lúcida lhe permitiria encontrar formas de sair de lá e provar que, mesmo não sendo absolutamente norma, não conseguiria mais suportar aquele ambiente. Cumpria todas as tarefas terapêuticas com primor, queria que todos percebessem que ela estava apta a conviver na sociedade e cuidar e sua própria vida. Se os médicos não escutavam seus apelos em afirmar que não era louca, então era preciso que ela provasses isso a eles.

Após tantas investidas no seu plano, entrou no consultório e mais uma vez suplicou pela última vez ao médico, dizendo que estava a um passo de concluir sua transformação para a loucura total caso continuasse lá por mais algumas horas. Foram minutos eternos de conversa tentando convencer aquele médico. Finalmente recebeu alta.

Foi para casa sem saber direito por quanto tempo havia permanecido lá. Não era a mesma pessoa. Sentia-se diferente e assustada como se tivesse acordado de um coma de semanas. Anos depois pediu para ver sua ficha médica e os relatórios. Chorou assustada com o que viu. Aqueles relatos não eram sobre sua pessoa, não poderia ser. Por diversas vezes checou todas as informações e os dados de sua ficha e seu nome estava lá. Nomes, datas, tudo batia com que o marido e a mãe contavam sobre seu estado durante aquele período. Era assustador, não se reconhecia. Até hoje não sabe ao certo por quanto tempo esteve lá, mas teve que assumir que um dia havia sido aquilo tudo e só teve uma única certeza na vida que carrega até hoje: mesmo que não fosse completamente curada, iria lutar todos os dias para que nunca mais voltasse para aquele lugar.

"É preciso fingir. Quem é que não finge neste mundo? É preciso dizer que está bem disposto, que não tá com fome, é preciso dizer que não está com dor de dente, que não está com medo. Nenhum médico jamais me disse que a fome e a pobreza podem levar ao distúrbio mental. Mas quem não come fica nervoso, quem não come e vê seus parentes sem comer pode chegar à loucura. Um desgosto pode levar à loucura, uma morte da família, o abandono de um grande amor. A gente até precisa fingir que é louco sendo louco, fingir que é poeta sendo poeta”. (Do filme "Bicho de sete cabeças")






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