O primeiro amor, a primeira dor.



Quase sempre a vida nos prega peças, mas e quando as pessoas nas quais confiamos nos pregam essa peças. E quando essas pessoas que tanto amamos traem nosso confiança? E quando essas pessoas que tanto amamos perdem a confiança em nós? Esse é um capítulo de amor, de lealdade, de confiança, de mentiras, de armações e de decepções. É sobre limites humanos e sobre injustiças. É um capítulo da descoberta do amor e da dor. Um capítulo cuja personagem se lembra dele até hoje, detalhe por detalhe, e ainda vê as cenas, as roupas, os rostos e os gestos. Um capítulo para jamais ser esquecido. Parece cenas de filmes de Sessão da Tarde, mas foi mais real do que as pessoas posam imaginar, assim como todo o leque de sentimentos envolvidos. É clichê como toda história bonita com final infeliz. É longa e simples como aconteceu.

 





Com as pernas soltas para frente e apoiada sobre os braços esticados atrás do corpo, Anna estava sentada na beira da calçada com sua turma do bairro, como fazia todas as noites entediantes de domingo.  Um carro virou a esquina e quebrou o silêncio monótono daquela rua extensa e larga rua sem saída. Dentro dele dois rapazes perguntavam que caminho deveriam tomar para chegar a um bairro que Anna nem ouviu direito, pois prestava mais atenção ao passageiro ao lado do motorista. Felipe não tinha nada de especial, estatura média, talvez mais baixo do que Anna, cabelos castanhos meio lisos e meio cacheados nas pontas queimadas pelo sol e pele bronzeada. O motorista, o primo mais velho de Felipe.

Anna permaneceu na mesma posição até Felipe sair do carro para se sentar ao seu lado, quando então Anna ajeitou a postura relaxada e deu uma leve e displicente arrumada nos cabelos longos. Logo veio a certeza, através da confissão de ambos, que o suposto pedido de informação de itinerário nada mais era do que uma desculpa para que eles parassem o carro e pudessem conhecer Anna e suas amigas, Laura e Cecília. Trocaram olhares, toques e telefones e, alguns dias depois, Felipe tornou-se seu primeiro namorado aos 13 anos.

Apesar de estarem separados apenas por uma grande avenida, uma linha de trólebus e alguns bairros, não se viam com muita frequência. Felipe também era novo, 15 anos. Ambos estudavam e competiam em modalidades esportivas e isso demandava esforço e, principalmente, muito tempo.  Nas primeiras semanas Felipe vinha vê-la somente aos finais de semana e logo se enturmou com seu grupo de amigos do bairro. Felipe passou a visitá-la acompanhada de seu skate e, apesar dele deixá-la um pouco de lado às vezes, ela percebeu que não havia muito a ser feito e tentar competir com seu esporte era inútil, mas Anna não se importava, ter um namorado mais velho, mesmo que fossem apenas dois anos, surfista e skatista, era sinal de status no bairro onde morava. Felipe não era seu primeiro grande amor mas era o seu primeiro namorado. O primeiro que a tocara intimamente e aquele que Anna também podia sentir, mas ainda assim não se sentia muito à vontade e livre para consumir aquele relacionamento. Apesar da insistência de Felipe, tudo ainda era muito novo para ela.

Durante a semana, nos poucos tempos livres, jogava conversa fora com as amigas, sentada na mesma calçada onde Felipe a conhecera. Em uma dessas conversas, Laura, um ano mais nova do que Anna, falou sobre o novo vizinho que estava se mudando para a única casa vazia do bairro que havia acabado de ser reformada: “são dois, um moreno alto e um louro mais novo”, disse Laura demonstrando seu interesse pelo mais baixo, o louro. Laura era mais nova e mais tímida do que Anna, então coube a Anna se aproximar da nova família do bairro. Solícita e educada, começou se apresentando a aquela que parecia ser a mãe dos rapazes, fornecendo as informações básicas sobre o funcionamento do bairro: em quais dias o caminhão de lixo passava, até que horas a padaria mais próxima ficava aberta, enfim, informações valiosas para o dia a dia de uma dona de casa. A mãe, muito simpática, logo se apresentou e poupou-a de tanta informação dizendo que, na verdade, já moravam no bairro, mas do outro lado da avenida, a cerca de alguns poucos quilômetros da nova casa. Bateram papo por alguns longos minutos e Anna logo retornou à amiga Laura com as informações que ela queria sobre os filhos e que a mãe prontamente tratou de fornecer, talvez porque tivesse achado-a tão simpática o suficiente para ser a namorada de um deles. O mais velho, o moreno, tinha cerca de cinco ou seis anos a mais do que elas, tinha uma namorada e seu nome era Jorge. O mais novo e solteiro, Renato, o louro pelo qual Laura havia se interessado, estudava num conhecido colégio da região e era apenas um ano mais velha do que Anna e dois a mais do que Laura, que já fazia planos com o novo morador da rua sem ao menos conhecê-lo. Laura não conseguia controlar seu entusiasmo regado diariamente há dias.

Alguns dias depois, sentadas naquela mesma calçada, Renato sobre sua moto apontou no início da rua e logo Laura, efusiva, começou a gritar anunciando sua presença. Ao avistar a meninas no meio do caminho de casa, Renato parou a moto em frente as duas e cumprimentou Anna praticamente ignorando Laura. Mais tarde, percebendo a decepção de Laura, Anna tentou consolá-la dizendo que eles já se conheciam e talvez por isso tenha demonstrado mais simpatia por ela que ainda não conhecia. Renato contou a Anna sobre sua vida, sua mudança e seu colégio, fazendo os mesmos questionamentos a Anna. Disse também que sua mãe havia a elogiado muito, o que a deixou ruborizada. Enquanto conversavam e Renato ignorava solenemente a presença de Laura, a mãe dele saiu ao portão, animada e simpática com Anna, igualmente ignorando a presença de Laura apesar de não lhe faltar com educação. A mãe de Renato era uma lady. Chic e educada como o filho. Renato, aliás, era a versão loura da mãe, tamanha sua semelhança física com ela. Seu irmão mais velho, Jorge, era a cópia do pai, um senhor simpático e doce como aquele tio predileto da gente. Era uma família linda e feliz. Ao se despedirem, claramente não tratavam Laura com a mesma intimidade com a qual tratavam Anna, nem Renato com o mesmo carinho. Anna sentiu-se lisonjeada e acarinhada, talvez até um tanto balançada, mas tratou de se lembrar  que no ponto final do trólebus morava seu namorado Felipe.

Os dias aconteciam normalmente e quase que diariamente Anna encontrava Renato saindo ou voltando da escola em cima de sua moto. Os cabelos enrolados jogados para trás pelo vento e pela velocidade da moto. Para sair de sua rua, Renato obrigatoriamente tinha que passar em frente ao prédio de Anna. Mesmo atrasado, assim que a via, Renato parava e desligava sua moto para cumprimentá-la. Quando se deu conta, Anna percebeu que quase mais não sentia as ausências constantes de Felipe que a abandonava com frequência para surfar no litoral com os amigos nos finais de semana. Mas Laura havia notado algo a mais que talvez Anna tentasse ignorar ou omitir: nitidamente havia mais cumplicidade entre Anna, sua melhor amiga, e seu “futuro namorado” Renato, como ela o chamava sem que ele soubesse. Anna tentava dissimular e tranquilizar Laura dizendo que tinha um namorado, Felipe, por quem era apaixonada, mas sem deixar transparecer o quanto Renato balançava seu coração. Levemente, mas já balançava. Renato era tão mais maduro, compreensivo e interessado do que seu namorado Felipe! E aquele físico? E o sorriso? E aqueles olhos azuis? E aquele cabelo propositalmente despenteado e moldado pelo vento causado pela moto? Não havia como resistir a ele...

Não seria possível afirmar se Felipe percebeu alguma mudança no comportamento de Anna, uma falta de interesse dela talvez, mas o fato é que Felipe passou a vê-la com mais frequência como se quisesse manter demarcado seu território. Apesar de não conhecer Renato, a tensão entre eles era perceptível e foi acentuada quando Renato se aproximou do grupo onde Felipe se exibia com seu skate. Felipe já sentia parte daquela turma, era sua namorada, sua nova turma e já havia ganho o respeito e admiração de todos, na cabeça dele ele deveria pensar “quem era aquele cara que havia acabado de se mudar e parecia querer tomar seu lugar?”.

Anna e Laura estavam sentadas no muro de um prédio. Laura na ponta que dava para a rua e Anna mais para dentro na ponta extrema mais distante da Ru. Renato também pegou seu skate, parou em frente à Laura, tirou a camisa, atravessou por Laura e pedia a Anna que ela segurasse sua camisa com um sorriso estampado no rosto. Ele poderia ter dado sua camisa à Laura, afinal de contas, ela era solteira, Felipe estava o tempo todo observando e tomando conta de sua namorada, além dela ser a última pessoa sentada naquele muro. Mas não, ele fez o movimento mais difícil, passou por todas e entregou sua camisa azul nas mãos de Anna. O mal estar instalou-se no grupo e somente iria piorar do decorrer daquela noite.

Sabendo que Anna era apaixonada por cães, Renato resolveu lhe apresentar seu cachorro. Soltou-o e ele corria ao redor de Ana como se conhecesse seu amor por animais. Brincaram juntos até o céu ameaçar um temporal, então Renato convidou a todos para entrassem em sua casa, Anna ainda com a camisa azul de Renato nas mãos. Felipe, mudo e visivelmente incomodado, apenas seguia o grupo e observava a atitude de Anna e Renato enquanto os dois se aproximavam cada vez mais.

Sentaram-se no chão do quintal coberto da casa de Renato. Anna sentou-se mais distante possível do grupo, deixando propositalmente espaço para que Renato pudesse sentar-se ao lado de sua amiga Laura, mas mesmo assim, Renato preferiu sentar-se mais ainda distante de todos, apenas para sentar-se ao lado de Anna. Não apenas sentou ao seu lado como colou seu corpo junto ao seu, sob olhar recriminatório de Felipe que nada disse, afinal, após Renato exibir-se com seu skate perante os meninos da turma, agora Felipe era o estranho no grupo, aquela não era mais sua turma, aquele não era seu  bairro, e talvez aquele nem fosse mais sua namorada, ele era minoria e nada poderia fazer.

Ao sentir o calor da coxa quente e suada de Renato após sua exibição no skate junto a sua, o coração de Anna disparou. Tentou disfarçar mas a presença de Renato visivelmente perturbava suas emoções. Anna evitava para Felipe e, além de tudo, para aqueles olhos azuis que já havia mudado de cor para verde, devido a mudança de temperatura e clima, mas mesmo assim Anna não pode deixar de notar: “seus olhos mudaram de cor”, sussurrou. Ele sorriu e não disse nada, Renato já tinha certeza de que causava forte impressão sobre ela.

A essa altura dos acontecimentos, sua amiga Laura estava completamente enlouquecida com a situação, mas mesmo assim, pela amizade e pelo seu namoro com Felipe, Anna insistia em dizer que entre ela e Renato nunca poderia haver algo. Laura não estava convencida e estava a cada dia mais emburrada e arredia. Sendo assim, Anna achou mais coerente e recomendado evitar Renato durante toda a semana, até que um dia o encontro entre os dois foi inevitável. Ele a chamou para conversarem e foi quando Anna achou que seria uma ótima ideia para colocar tudo em pratos limpos, iria dizer o quanto Laura estava interessada nele e que era sua amiga, que não poderia traí-la e também ao seu namorado Felipe. Renato ouvia tudo atentamente e respondeu com apenas uma frase: “acontece que eu não estou nem um pouco interessado na Laura, eu quero você”. Aquela frase foi se tivessem aberto as comportas de uma represa. O coração de Anna disparou e Renato segurou-a pelo pescoço com força e, trazendo seu corpo contra o dele, a beijou. Anna correspondeu ao beijo com seu coração palpitando e as pernas trêmulas. Beijar Renato foi uma das experiências mais inexplicáveis e maravilhosas que Anna poderia ter tido até aquele dia e talvez nos anos seguintes. O cheiro de Renato era fantástico. Renato era doce, macio, quente. Tinha o hálito tão fresco como alguém que havia acabado de escovar os dentes. A sensação era de comer um pedaço de chocolate com algumas gotas de menta e uma pitada de pimenta. A respiração de Renato era ofegante e tranquila ao mesmo tempo, Anna sentia-se como se aquele cheiro e aquele gosto lhe fossem familiar há muito tempo.

O problema estava definitivamente estabelecido. Agora teriam que lidar com Laura, Felipe e com toda a turma de amigos do bairro que, certamente, ficariam surpresos com a novidade. Anna com 14 anos, ele com 15, eram ainda muito jovens para enfrentar a todos. Laura, claro, não se conformava. Anna dizia que tentou evitar ao máximo que isso acontecesse mas que não poderia mandar nos sentimentos dela e nem de Renato. Todos tinham sido testemunhas de o quanto Anna tentou aproximar Renato de Laura mas simplesmente não aconteceu, não era de Laura que Renato gostava. Quando procurou por Felipe, ele parecia já saber o que estava acontecendo, apesar disso, Felipe demonstrou-se conformado, frio e maduro demais para aquilo que Anna conhecia dele mas, enfim, o relacionamento dos dois havia chegado ao fim e continuariam amigos.

No dia seguinte Anna sentia-se como estivesse flutuando, feliz, sorridente e apaixonada. Felipe certamente nunca havia conseguido causar tanto impacto nela como Renato. O grupo gostava demais do novo morador então não houve problemas para a aceitação de Renato como sendo o novo namorado de Anna, mesmo sabendo que Laura estava apaixonada por ele. Todos foram testemunhas de que Ana havia se aproximado de Renato com o único objetivo de aproximá-lo de Laura, mas que Renato havia se interessado por ela. Laura já fazia planos para o irmão mais velho de Renato, o Jorge, mesmo que ele fosse bem mais velho do que o grupo, tivesse uma namorada e não desse a mínima importância para Laura, ela estava decidida a conquistar Jorge. Para Laura, o fato de Jorge ser mais velho lhe trazia uma espécie de status e vingança, um troféu, como se tivesse conquistado “o melhor da família” e até do bairro. Atitude que todos reconheciam como surreal, insana e imatura, mas ninguém tentou impedir Laura do seu novo empreendimento. Jorge, lógico, apoiava a relação de Renato com Anna e ainda ria de toda aquela atitude patética de Laura.

Durante semanas Anna foi feliz com Renato. Andavam de carro e moto para cima e para baixo, quase que diariamente. Renato a levava para sua antiga casa vazia e foi lá que Anna pode experimentar novas sensações e emoções físicas. Tudo entre os dois ocorria da forma mais natural possível, Anna sentia-se segura com ele, Renato passava confiabilidade, cumplicidade e intimidade. Renato foi o primeiro homem a vê-la nua, assim como Renato foi para Anna a primeira visão que teve de um homem nu. O corpo de Renato era  perfeito: atlético, musculoso, ombros largos esculpidos pelo surf e pela natação, ombros definidos pela musculação, e pernas torneadas pelo motociclismo. Sentia-se protegida. Não sentia vergonha dele e se entregava a todas as propostas que Renato trazia para o relacionamento, mas ainda não se sentia suficientemente segura para perder a virgindade, apesar de saber que, com Renato, seria apenas uma questão de tempo, talvez alguns poucos dias. De vez em quando Anna e Renato se trancavam no quarto de Renato, seus pais eram bem liberais e gostavam muito dela e não era incomum eles ou seu irmão flagrá-los em momentos de total intimidade. Lidavam com tanta naturalidade que Anna não se sentia incomodada, invadida ou violada. Um dia Anna estava ao banheiro e como na tinha o hábito de trancar a porta, o irmão de Renato entrou no banheiro, pediu desculpas, tapou os olhos mas mesmo assim continuou procurando sua toalha. Um dia a mãe de Renato flagrou os dois tomando banho juntos e teve uma reação tão natural como se os dois estivessem lavando louça juntos. A mãe de Renato era como sua melhor confidente, apesar de nunca ter tido coragem de se abrir totalmente com ela. O mesmo acontecia com o pai e irmão de Renato. O irmão era piadista e carinhoso com Anna, mas o pai, ahhhh, o pai de Renato...  era sua “segunda paixão”. Anna adorava o pai de Renato, era um “fofo”, segundo ela e vivia fazendo de tudo para agradá-la. Aliás, seria injusto não mencionar que todos naquela casa faziam de tudo para agradá-la e Anna se sentia feliz. Não poderia estar mais feliz, tinha o namorado lindo e perfeito, com sogros e cunhados que a adoravam e era recíproco. Realmente era muito feliz e estava vivendo um sonho.

Mas essa felicidade seria abalada por uma armação digna de um filme policial...

Renato adoeceu. Era ocorrer uma mudança brusca no clima para ele adoecer e isso foi aconteceu justo às vésperas da festa de debutante da irmã de Laura, Cecília, a qual Anna não poderia faltar. Um dia antes da festa, foi à casa de Renato que estava de cama, como vinha fazendo na última semana, na esperança de encontrá-lo bem para que pudessem ir juntos à festa. A mãe de Renato ainda encorajou seu filho a tentar ir à festa mas Renato realmente estava muito doente, mal e febril. Ao pé da cama de Renato, Anna chorou. Não queria mais ir à festa sem Renato mas não tinha muito o que ser feito, ela teria que comparecer mesmo sem o namorado.

Conformada, no dia da festa Anna foi como se estivesse indo a um enterro. Não importava que fosse uma grande festa com muitos convidados, música boa, local perfeito pois seu namorado não podia lhe acompanhar. Durante toda a noite só tinha em mente a imagem de Renato pálido na cama. Aquele corpo forte e másculo de repente havia se debilitado e, naquela semana, seu bronzeado de praia havia se transformado num tom claro e pálido, quase assustador.  Mesmo assim, já que estava lá tentou se divertir um pouco dançando com alguns amigos mas, cada vez que fechava os olhos, só conseguia ver Renato e ensaiava algumas lágrimas que logo tratava de secar. Foi durante uma dessas danças que sentiu alguém cutucar suas costas, virou e era Felipe, seu primeiro e ex-namorado. “O que você está fazendo aqui?”, gritou tão ou mais alto quanto o volume da música. Felipe havia sido convidado por Laura, mesmo que não houvesse motivo para isso, afinal de contas, Cecília havia conhecido Felipe no mesmo dia em que Anna havia o conhecido e nunca mais falou com ele, e Laura, sua irmã, não era tão intima assim de Felipe, apenas colegas que pouco conversavam quando Felipe ia visitar sua ex-namorada Anna. Atrás de Felipe, seu primo, aquele que dirigia o carro quando Anna conheceu Felipe. Seu primo a puxou num canto enquanto Felipe ia buscar alguns drinks: “você não deveria ter feito isso com meu primo, ele está muito abalado e triste, você partiu o coração de Felipe”. Antes que Anna pudesse responder, Felipe chegou com os drinks e Anna o puxou para fora da festa exigindo explicações. Não tinha motivos para Felipe estar ali, e foi quando Anna percebeu que tudo não se passava de uma grande armação já que ele havia sido convidado justamente no dia em que Laura soube que Renato não poderia ir à festa porque estava acamado. Enquanto Anna se mostrava nervosa e irrita com a presença de Felipe, este estava um doce de pessoa... calmo, carinhoso, carente, como nunca havia estado antes. Anna estranhou mas, mesmo assim, sentiu-se de certa forma comovida com o sofrimento de Felipe. Disse a ele que havia gostado muito dele e que o que aconteceu entre ela e Renato não havia sido programado e que ela tentou evitar por causa de Laura e por ele, mas aconteceu. Felipe perguntou a Anna se era feliz com Renato e ela não conseguiu responder, mas nem precisava, até a forma como Anna se referia a Renato era diferente. Felipe ensaiou um choro e pediu a Anna que ela o beijasse pela última vez. Ela então pediu que ele não fizesse aquilo, que ele era muito especial para ela e que não queria perder sua amizade. Anna então desabou a chorar e entrou correndo e chorando no salão. Ela não queria e nunca quis magoar Felipe porque ele havia sido muito especial a ela, havia sido seu o primeiro namorado, não tem como esquecer um “título” desses, mas Anna estava completamente apaixonada por Renato. Anna sabia que estar com Felipe minimizaria muitas questões delicadas até em relação a sua amizade com Laura, nas não era uma questão de escolha, havia se apaixonado verdadeiramente por Renato, era com ele que era queria estar, era nele que ela pensava, era por ele que ela queria ser tocada, era com ele que ela queria perder sua virgindade. Depois da conversa com Felipe, a noite para ela, havia acabado. Felipe foi embora dizendo que Anna não poderia ter feito aquilo e que ela jamais esqueceria, mesmo assim, antes dele entrar no carro, Anna correu e o abraçou forte, deu um beijo terno e longo em seu rosto ao som de um “adeus”...

Acordar em sua cama no dia seguinte e perceber que aquela festa havia acabado foi um grande alívio. Talvez tenha sido a pior festa da sua vida. Correu para levantar e se arrumar para ver Renato. A única coisa que ela queria naquele momento era estar em seus braços, era melhor do que tudo na vida... Renato era seu porto seguro, o amor da sua vida, sua paixão, seu homem... Iria subir correndo as escadas até seu quarto e se enfiar com ele debaixo das cobertas esperando a tarde passar. Aqueles momentos eram melhores do que tudo.

Renato foi melhorando no decorrer da semana até que em um dia qualquer Anna sorriu ao chegar na rua e avistar Renato ao longe, conversando com os amigos, bem melhor do que tinha estado na última semana. Ficou feliz ao ver que ele havia saído de casa depois te tanto tempo de cama.  Mas Renato parecia sério. Sério, carrancudo e frio: “precisamos conversar”. O beijo dessa vez era um selinho seco, curto e frio. Não entendeu direito, olhou ao redor e seus amigos de anos a observavam com cara de reprovação, mas não tinha a mínima ideia do que estava acontecendo. Ela nem sentou e Renato estendeu o braço a Anna. Em suas mãos algumas fotografias: “as fotografias da festa da Cecília, achei que gostaria de dar uma olhada”. Havia algo muito estranho acontecendo e Anna não fazia a menor ideia do que se tratava. Sob um “o que está acontecendo aqui, gente”, recolheu, trêmula e desconfiada, as fotos da mão de seu namorado.

Não acreditou no que viu. Na verdade chegou quase a desfalecer e teve que ser amparada pelo próprio Renato. Sentiu ânsia de vômito e levou a mão à boca para evitar o pior. Ajoelhou-se no chão para evitar a queda e desabou a chorar com as fotos em uma das mãos e a outra mão na boca em sinal de horror. Não era possível aquilo que estava acontecendo, não era real. Certamente era seu pior pesadelo, não tinha outra explicação. Em uma das fotografias, não muito nítida, Anna parecia estar dançando enquanto beijava Felipe. “Mas o que é isso, gente, eu não beijei Felipe, não dessa maneira! Conversamos, nos abraçamos e eu dei um longo beijo de amiga no seu rosto, eu não fiquei com o Felipe, essa não pode ser eu, esse não pode ser ele, isso não aconteceu, que loucura é essa?”. Olhou novamente e não podia acreditar no que estava vendo. Era ela, sua roupa, seus cabelos. Era Felipe, a roupa que ele também vestia, mas a cena não existiu. Pensou se talvez alguém a tivesse dopado com algo que fizesse com que ela não se lembrasse do que aconteceu, mas refez passo a passo, como num filme, tudo o que havia acontecido naquela noite, até palavra por palavra que havia dito a Felipe. “Renato, isso não pode estar acontecendo comigo, você sabe que eu jamais trairia você e ainda por cima com o Felipe numa festa onde todos estariam presentes!” Sob intenso choro e aos berros, completamente assustada, desnorteada e horrorizada, continuou, dessa vez se dirigindo a aqueles que sempre ela considerou como amigos:  “vocês estavam lá, por favor, confirmem que não aconteceu nada, vocês sabem que estou dizendo a verdade, vocês me viram conversando com o Felipe e foi só isso, isso só pode ser uma armação ou uma grande coincidência de alguém estar com a mesma roupa do que eu e ser muito parecida comigo, por favor, digam ao Renato o que de fato aconteceu, vocês todos viram que eu conversei sim com o Felipe, a pedido do primo dele, mas eu jamais ficaria com ele, você estavam presentes e viram tudo”. Desesperada, Anna repetia as mesmas frases continuamente, mas todos permaneceram mudos, alguns baixaram a cabeça e não conseguiam encará-la. 

A essa altura Anna já estava completamente desequilibrada com toda aquela situação, não poderia ser verdade, Anna tinha certeza de que não havia acontecido nada e que ela jamais faria isso com o Renato. Renato disse um “acabou, Anna”, cruzou os braços e manteve-se em pé, frio e inerte. Eles pareciam estar dispostos a toda aquela cena que, certamente, havia sido armada contra ela. “Renato, pergunte a Laura e a Cecília porque elas convidaram o Felipe apenas quando souberam que você não iria à festa comigo, não é possível que você esteja acreditando nisso, eu te amo e nunca faria isso com você”. Nunca havia dito antes a Renato que o amava. Ao ouvir isso, Renato deixou que uma lágrima escorresse pelo seu rosto, mas continuou orgulhoso e frio. Ao ouvir os gritos, a mãe de Laura e Cecília, que até outro dia Anna considerava como sua segunda mãe, saiu ao portão: “Não tem nada o que explicar ou esclarecer, está aí para todos verem, nas fotos”. Como se ainda coubesse mais desespero, Anna começou se desesperar cada vez mais, sussurrando que não era possível que aquilo estava acontecendo a ela. Cecília então saiu de seu lugar e abraçou Renato, como se quisesse consolá-lo e, na verdade, naquela noite em que ele terminou com Anna, ele começou a namorar Cecília, a irmã de Laura, assim que a mãe delas lhe mostrou as fotografias. Sem interromper o choro bradou tão alto que pessoas saíram às janelas no prédio do final da rua: “vocês sabem que não estou mentindo, vocês sabem que armaram para mim. Eu não sei porque você estão em conluio com esse teatro, mas um dia vocês irão perceber o erro que estão cometendo e irão me pedir perdão, e eu nem preciso esclarecer muito, vejam por si só, a própria irmã namorando com o cara por quem a irmã era apaixonada, raciocinem”. Virou-se para Renato: “você foi o maior amor da minha vida e a minha maior decepção foi perceber que você seria capaz de duvidar e não acreditar em mim e que prefere dar ouvidos a essas pessoas, mesmo sabendo que essa família (referindo-se a Laura, Cecília e à mãe delas) faria de tudo para que você namorasse com a Laura, todos sabem, mas ninguém aqui quer admitir, que o sonho da mãe delas é casar as filhas com dois homens ricos, a Cecília já havia agarrado o pote de ouro dela e o da Laura era você, e elas estão fazendo de tudo, até o jogo mais baixo, para tentar nos separar... espero que não seja tarde demais para você acordar e perceber isso, um dia a verdade irá aparecer, adeus, Renato”. A mãe das meninas tentou soltar um “olha aqui, garota” que Anna cortou e respondeu gritando no meio de seu choro: “cale sua boca, sua mentirosa, cobra, cafetina de suas próprias filhas, o que é seu já está guardado”. A essa altura do campeonato, um rio escorria pelo rosto de Renato e seus olhos, às vezes azuis, às vezes verdes, agora eram vermelhos. Ainda assim, Renato não deu o braço a torcer e permitiu que Anna partisse aos prantos e cambaleando em direção de casa.

Ao chegar em casa aos prantos foi recebida por sua mãe: “mãe, eu não sei o que fizeram, mas armaram feio para mim, acho que falsificaram uma fotografia minha com o Felipe, mãe, eu não sei direito o que está acontecendo, não sei como fizeram isso... eu amo o Renato, jamais o trairia, mas ele preferiu acreditar no que viu... eu juro, mãe, que eu não fiquei com o Felipe e não sei como a mãe da Laura e da Cecília foi capaz de fazer isso comigo... todos duvidaram de mim, mãe eu não sei o que fazer, minha imagem foi manchada e agora o Renato não quer saber mais de mim, socorro, eu não sei se irei aguentar, eu quero morrer, mãe...”. Sua mãe a abraçou e disse apenas que acreditava nela e que a verdade iria aparecer, cedo ou tarde.

Foi uma semana de cama. Uma semana sem ver a luz do dia e sem sair do quarto. Não tinha forças nem para tomar banho e suas refeições eram levadas no seu quarto. Sua mãe desesperada a todo momento lhe dizia que  precisava vencer aquela situação, erguer a cabeça e mostrar a todos que estava com a consciência limpa e que não poderia se entregar daquele jeito, mas Anna não conseguia. Seu coração doía e por vários momentos achou que não iria suportar tamanha dor e injustiça e que iria morrer. A partir daquele momento passou a odiar a mentira e a injustiça com todas as suas forças.

Na terceira semana, ainda na sua clausura, Anna podia ouvir a buzina da moto de Renato debaixo da sua janela. Não conseguia abri-la, não conseguia sequer olhar para Renato. Como ele poda ter feito isso com ela, ter acreditado naquelas pessoas ao invés de acreditar na pessoa que o amava de verdade e que havia se entregado ele? Para Anna era incompreensível.
 
Seu irmão bateu à sua porta várias vezes, Renato estava lá, embaixo do prédio, querendo vê-la quase que diariamente: “diga que eu morri”. O natural era sentir vontade de sair correndo e se jogar nos braços de Renato, beijá-lo e fazer amor com ele pela primeira vez, mas não tinha forças. Sentia-se tão magoada com Renato que não conseguia encontrar sequer motivos para olhar para seus olhos azuis que Anna tanto amava.

O tempo passou e era necessário voltar à vida normal, a escola, as provas, treinos, ao seu cotidiano. Mesmo abatida, levantou-se da cama e tentou encontrar forças e motivos para continuar. Na escola mantinha-se calada, triste, apática, já não era mais a mesma menina brincalhona de antes. Sua vida se dividia entre antes e depois de Renato e daquela fatídica noite. Num último momento de desespero pensou em ligar para Felipe e lhe implorar que contasse a verdade para Renato, mas nem para isso tinha forças. E se Felipe, por vingança, confirmasse toda a mentira? Não queria mais se relacionar com Renato, mas fazia questão que ele soubesse da verdade. Decidiu ligar. Felipe confirmou a mentir e disse que eles haviam ficado juntos. Não pode ser...  Anna tinha a certeza de que não tinha culpa e que não havia errado, estava de consciência limpa e era isso o que importava. Quem sairia perdendo seriam as pessoas que não haviam acreditado nela e agora acreditavam nas mentiras armadas pela família de Laura e Cecília. Na época nem lhe passou pela cabeça procurar pela polícia, porque aquilo se tratava de um crime, mas não havia ninguém a aconselhá-la porque muitos viam aquilo como uma briga de namorados adolescente.

A mágoa de Anna era tanta, seu sofrimento era tão grande e imenso que sequer conseguiu ter forças para odiar qualquer pessoa. Mas toda vez que via Renato e Cecília juntos, sentiu uma terrível ânsia de vômito. Tentou retomar sua vida tentando se esquecer da existência de Renato, mas era impossível. Para sair de casa, Renato obrigatoriamente tinha que passar pela casa de Anna e o barulho característico de uma moto preparada para competição de motocross era inconfundível. Quando estava em casa, mesmo do seu quarto nos fundos do apartamento, Anna sabia exatamente em que momentos Renato voltava ou saía de casa. Teria que se conformar e se habituar a isso.

Um dia, caminhando pela rua distraidamente, Anna foi fechada e encurralada pela moto de Renato: “precisamos conversar, até quando você pensa que continuará fugindo de mim?”. Anna pensou em avançar sobre ele, bater, descarregar todo o ódio que sentia por ele não ter acreditado nela, mas nem para isso tinha forças. Foi nesse dia que Anna descobriu o verdadeiro sentido do ódio como o sucessor de um amor muito forte frustrado mas ainda assim não conseguia reagir. Renato disse aquilo que Anna já esperava ouvir, que acreditava nela mas que não podia e não conseguia porque tudo estava contra mim, até provas que ele sabia que eram falsas e que haviam sido produzidas e existiam contra mim mas que, no fundo, ele sabia que eu estava dizendo a verdade o tempo todo. Foi sincero ao admitir que não tinha sido homem e que fraquejou e, ainda, que se arrependia muito pelo o que acontece e por sua atitude. Disse a Anna que nunca quis que ela fosse a aquela festa mas que não tinha como impedi-la e que sentiu ódio de si mesmo por não ter podido acompanhá-la ou por ter permitido que fizessem o que foi feito com ela, sentia-se culpado, se ele estivesse com ela ou se ela não fosse à festa, nada daquilo teria acontecido. Anna não resistiu e usou o pouco de força que ainda lhe restava para abraçá-lo e beijá-lo, deixando para trás toda a dor que vinha sentindo há semanas. Não importava mais, nada importava, só queria voltar a se sentir segura em seus braços.

Logo estavam juntos novamente mas acharam melhor não assumirem publicamente. Anna cortou relações de vez com aquelas que, um dia, haviam sido suas melhores amigas e confidentes e com aqueles que continuaram ao lado delas, as irmãs Laura e Cecília. Ela voltou a se reunir novamente com os amigos da rua, porém agora se encontravam em frente à casa de Renato. Ao poucos os demais membros da turma passaram a se afastar de Laura e Cecília e se juntaram a Anna e a Renato. As duas permaneceram sozinhas, não tinham mais amigos naquele bairro.

Durante anos foi assim, eles se viam, ficavam juntos, saíam, trocavam intimidades, mas nunca mais namoraram oficialmente.  No fundo, Anna ainda guardava uma grande mágoa não curada, uma falta de confiança, um medo de tudo acontecer novamente e pior. Não havia mais aquele sonho romântico, aquela história de amor imaculada, algo havia se quebrado e se perdido em algum momento. Preferiram assim. Anna tinha a liberdade de ter outros relacionamentos e ele também, mas quando Anna estava com alguém, evitava a presença de Renato. Ele, por sua vez, sempre quis estar junto dela, mesmo se relacionando com outras pessoas. Ele traía outras pessoas para ficar com Anna e isso acontecia toda vez que se viam, ou seja, quase todos os dias. Depois disso, nunca mais ele namorou sério com alguém até Anna se mudar do bairro e nunca mais vê-lo.

Mas poucos antes de sua mudança, aconteceria algo muito importante na sua vida, um divisor de águas, algo que a marcaria para sempre e cujo responsável seria ele mesmo, Renato, porque Anna assim queria que fosse... Sempre quis assim...






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