O lavador de privadas


No último dia 13/03, em uma "resposta antecipada" à manifestação marcada para hoje (15/03) contra o governo da presidente Dilma do PT, a CUT (Central Única dos Trabalhadores), MST (Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), UNE (União Nacional dos Estudantes) e outros movimentos sociais, iniciaram um protesto em "defesa" da estatal, dos "direitos dos trabalhadores", da "democracia" e da "reforma política", na principal avenida da capital paulista, a avenida Paulista. Não entrarei no mérito do protesto, nos objetivos ou em assuntos políticos, mas o cartaz (acima) chamou a atenção de todos e acabou mexendo diretamente comigo.






Quero começar dizendo que não é preciso ir para Miami para lavar privadas. No sentido mais figurado da coisa, o tempo todo os brasileiros são obrigados a limpar as sujeiras deixadas pela corrupção no Brasil. Antes de "lavar as privadas alheias", devemos começar lavando as nossas próprias (e é por isso que uma manifestação nacional foi marcada para hoje). 

Porém mais do que o sentido que isso possa ter, fiquei pensando em duas situações sendo que uma delas me incomoda diretamente.

A primeira coisa na qual eu não conseguia parar de pensar era nas lavadoras e lavadores de privadas desse país. E quando eu falo em "lavadores de privadas", estão incluídos nessa categoria todos aqueles que exercem uma atividade necessária e que ninguém quer mas que alguém precisa fazer e que, geralmente, são extremamente mal remunerados e, muitas vezes, só exercem essa ocupação por falta de oportunidade ou qualificação: lavadores de privadas, de pratos, lixeiros, empregadas domésticas, copeiras, faxineiras, enfim, uma gama de profissionais que cumprem o seu trabalho o mais dignamente possível por falta de opção, porque gostam do que fazem ou porque vislumbram um crescimento no futuro, assim como uma história que você irá conhecer no decorrer desta publicação.

Então me lembrei de outra questão, dessa vez particular.

Me senti incomodada e ofendida pelo rapaz ter citado "lavar privadas" como algo "inferior" ou indigno" porque eu tenho um tio que lavou muita privada nessa vida no começo do século passado. E depois de lavar privadas pelo centro de São Paulo, ainda ia a pé para sua humilde casa na zona leste, numa época onde nem era habitada, para poder economizar o dinheiro da passagem para conseguir colocar mais comida para seus irmãos.Havia uma guerra mundial acontecendo naquela época, aquilo sim era uma crise mundial que afetaria a todos.

Não costumo falar sobre minha família, questão de tentar manter um pouco da privacidade que ainda me resta, mas eu preciso falar dele porque, mais do que meu próprio pai, foi meu mote durante minha vida toda. Ele foi o exemplo de dignidade, de orgulho, de não sentir vergonha ou humilhado, de acreditar, de força, de empenho, de não desistir e de recomeçar.
Quero falar da história de um rapaz simples que lavava privadas. 

Do executivo, empresário, produtor, industrial e importador que se tornou um homem de respeito e admirado até pelos presidentes do Brasil. Um homem que, dos banheiros sujos de um banco privado, tornou-se presidente dele. Um homem conceituado que passou por empresas privadas e estatais como a Massey Fergusson, Vemag, Cosipa, Bancos Mercantil de São Paulo e Itau, apenas para citar algumas. Que de tão respeitado tornou-se presidente de associações como Anfavea e Sinditêxtil, vice-presidente Fiesp e Ciesp. Também foi presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Automóveis, do Sindicado das Fábricas de Veículos, do Sindicato da Indústria Automobilística e do Sindicato da Indústria de Fiação e Tecelagem de SP. Um homem que já foi um dos maiores produtores e premiados produtores de grãos e gado, não apenas no estado de São Paulo como no país. O homem de futuro que acreditou no Brasil, principalmente na produção da soja, enquanto muitos diziam que ele era louco, do trigo e da indústria automobilística. Um lavador de privadas...

E aos que tentarem rotulá-lo como "elite opressora", fica a reposta que ele deu ao então presidente Costa e Silva que ficou espantado quando disse, em 1969, que naquele ano seriam produzidos 100.000 veículos a mais do que em 1968, porque que acreditava na força de compra dos jovem de classe média. Meu tio queria que todos pudessem ter seu próprio carro e acreditava nisso. O homem que na década de 60 já pensava em produzir no Brasil os primeiros carros populares (1.0) para que fossem acessíveis à população. Homem que recebeu premiações por ter tornado sua fazenda, antes terra improdutiva, em uma área fértil e totalmente recuperada. Homem que construiu toda uma estrutura para os funcionários da sua fazenda dando a eles casa e até uma escola que levou o nome de sua falecida esposa. Homem que viajou o mundo e não se cansava em fazer filantropia que nem era divulgada pelos jornais da época. Homem que pedia a sua fiel empregada negra, dentre todos os vários funcionários de sua mansão, que carinhosamente chamávamos de "Preta", para se sentar à mesa para comer conosco.

Eu poderia passar horas falando do homem e do tio maravilhoso que ele foi. Eu poderia encher esse post com recortes de jornais da época ressaltando o quanto ele foi importante para a história desse país. Mas não, para mim basta encher os olhos de lágrimas de saudade e saber que ele começou como... um simples lavador de privadas, e no Brasil.

Infelizmente, ou felizmente, meu tio não está mais vivo para ler um absurdo como esse representado pelo cartaz do rapaz durante a manifestação. Se estivesse vivo o chamaria para um aula de respeito e dignidade. Eu não sei o seu nome, moço do cartaz, mas o que vi uma uma total de demonstração de falta de respeito e dignidade e saiba que, se alguns saíram do país para lavar privadas no exterior, é porque muitos não tem a sorte e oportunidades como meu tio teve. Muitos cansaram de lutar para continuar aqui e foram levados para fora movidos por algo chamado esperança. Muitos sentem falta do nosso Brasil mas sabem que aqui não teriam as mesmas condições de vida que hoje tem lá fora, mesmo lavando privadas. Às vezes, para alguns, lavar privadas num país estranho, além de ser mais respeitado como ser humano, é melhor do que viver uma vida de merda no seu próprio país.

O lavador de privadas que foi meu exemplo e que deveria ser o de muitos... Com vocês, meu tio, meu orgulho, meu objetivo, meu exemplo, "o lavador de privadas" que acreditou no Brasil e na construção de um futuro melhor:







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