Quando a vida começa



A todo momento a polêmica sobre liberar ou não o aborto vem à tona novamente. Me lembro de ter escrito e publicado esse texto originalmente em junho de 2013 quando foi colocada em discussão a aprovação, por uma comissão da Câmara, um projeto que previa os direitos dos fetos desde sua concepção, conhecido como "Estatuto do Nascituro". Se enquadra em nascituro aqueles que ainda venham a nascer, logo a discussão era sobre o início da vida. Eu tinha algumas pesquisas e informações guardadas na manga desde que defendi a não regulamentação do aborto, exceto nos casos em que hoje já é possível e legal fazê-lo, mesmo que, particularmente, eu ainda seja contra. Não quero entrar na questão do "Estatuto do Nascituro" mesmo porque confesso que discordo de alguns pontos dele, assim como tenho dúvidas em relação a outros. O que quero discutir aqui é: quando a vida começa?








Algumas correntes médicas acreditam que o início da vida se dá quando o embrião adquire forma humana, outros com o bater do coração, outros quando o embrião se torna feto e outros somente quando o sistema nervoso está formado. Há ainda os que defendam que a vida começa somente após o nascimento. Enfim, a própria comunidade médica está dividida. A questão ainda esbarra em fatores éticos, morais e religiosos.

Mas o que diz a Biologia, que é a responsável por todo o processo? Biologicamente é inegável que a formação de um novo ser, com um novo código genético, começa no momento da união do óvulo com o espermatozoide. E não apenas a Biologia, mas a Embriologia e a Genética também defendem o início da vida na fecundação, quando o zigoto forma sua identidade genética que será responsável por todo o desenvolvimento humano durante toda a sua vida. Algumas correntes médicas também possuem a mesma opinião.

A partir do momento em que a medicina se aproxima da ciência humana, logo é natural que ela se afaste cada vez mais das ideias e questões científicas empíricas biológicas. Como o filósofo Peter Singer que levou às últimas consequências o critério de autoconsciência para determinar o direito à vida. Singer diz que é lícito exterminar a vida do embrião, feto ou até de um recém-nascido extremamente debilitado pois não possuem consciência de si, sentido de futuro ou capacidade de se relacionar com os demais. Dalton Ramos, professor da USP e PUC-SP faz uma colocação interessante: “assim como não dá para dizer que matar um jovem é melhor que matar um adulto, não há diferença de dignidade entre um embrião e um feto de 6 meses”.

Langman é referência sobre embriologia em todas as faculdades de medicina na aprendizagem do desenvolvimento humano inicial. Segundo ele, a partir do momento em que o espermatozoide ingressa no gameta feminino, os núcleos masculino e feminino entram em contato íntimo, replicando seu DNA e gerando uma nova célula chamada zigoto. E o que difere esta nova célula das demais? Ela possui identidade genética própria com capacidade de controlar seu próprio desenvolvimento até se tornar um organismo completo, complexo e estruturado. Todo o código de vida está no zigoto e é uma célula que pertence à espécie humana, possui polaridade e assimetria. O desenvolvimento do indivíduo implica numa série de interações entre as suas células, entre os seus genes com componentes do meio interno e externo.

O argumento mais utilizado por algumas correntes feministas é o de que a célula é uma extensão da mãe, portanto, pertence ao seu corpo. Se a embriologia, a genética e a biologia afirmam que esta nova célula possui uma identidade genética própria que é diferente da que pertence aos que lhe transmitiram a vida (o pai e a mãe), portanto esta célula apenas está "hospedada" na mãe, não é extensão do seu corpo, não "pertence" a ela.

Eu  não defendo direito das mulheres, defendo o direito à vida. Se as maiores ciências responsáveis por determinar a vida, que são a Embriologia, a Genética e a Biologia, quem sou eu para discordar deles? Uma vez que estas ciências defendem que a vida começa na fecundação, logo esta célula com carga genética humana tem vida. E quem defende os direitos dela? Certo, pode parecer estranho defender uma célula à uma vida humana formada, como tem gente que acha estranho defender animais à pessoas. Esta "vida" pode parecer apenas um amontoado de células, mas carrega toda a informação necessária para a formação do indivíduo.

Mas a questão do início da vida vai além da questão científica para esbarrar no ponto de vista ético por isso gera confusões até na comunidade médica. Em virtude das pesquisas com célula-tronco, dos projetos quem tramitam sobre a legalização do aborto e do aborto de anencéfalos, a posição "sugerida" pelo Conselho Federal de Medicina é que seria permitida a interrupção da gravidez até 12 semanas. Mas essa posição não é consenso entre todos os médicos.

Mas como e por que foi determinado os "12 semanas"? Com base no "estatuto moral" do embrião e não na ciência: o embrião com até 12 semanas não tem o sistema nervoso para estabelecer relações. O mais interessante em tudo isso, e que talvez as feministas não saibam, é que essa definição vem de Aristóteles, proprietário de uma das posições das mais misóginas possíveis: que as mulheres eram física e intelectualmente inferiores aos homens e, por isso, se desenvolviam mais lentamente. Segundo Aristóteles, o feto tinha vida a partir do primeiro movimento no útero, no feto do sexo masculino ocorria até o 40º dia de gestação e no feminino, apenas no 90º dia. Como não era possível determinar o sexo do feto, o aborto era legal até o 40º dia da gestação. É quando o feto "ganharia alma". Surprise!

Para alguns Conselhos Regionais de Medicina, a fecundação continua se dando através da fecundação, respeitando os experimentos científicos de quem entende do assunto, afinal de contas, antes de mais nada, a Medicina ainda é uma ciência. Para estes médicos, aborto é uma solução extrema. E mais, o código de ética médica informa que o médico não é obrigado a executar procedimentos contra sua consciência e a convicção pessoal de muitos é a de que médicos são treinados para salvar vidas, não tirá-las: "doutores são treinados para salvar vidas, não matá-las", segundo o CRM.

Por incrível que pareça no âmbito da religião as opiniões são bem diversas. Os católicos e hindus defendem que a vida começa na fecundação, enquanto judeus acreditam que ela ocorra na 40ª semana e os muçulmanos na 120ª semana. No Budismo não há consenso porque, para budistas, a vida está em tudo, é um processo contínuo e ininterrupto, sem início ou fim.

Em suma, se a ciência determinou quando a vida se inicia, as divergências parecem mesmo ocorrer nos âmbitos religiosos, filosóficos, morais, éticos e culturais.

Eu, como cristã, particularmente me baseio na ciência por isso defendo que a vida começa na fecundação. É um erro os descrentes, céticos e ateus acreditarem que algumas religiões ignoram a ciência por completo. A fé não interfere no crédito da ciência comprovada. Lógico que há sacerdotes fundamentalistas, de todas as crenças, que fazem uma lavagem cerebral em alguns fiéis que sequer buscam informações e pesquisam sobre o assunto sob o ponto de vista científico. Felizmente, estas pessoas não representam todos, mas como alguns deles estão sendo foco da mídia, é natural que a população nivele todos pelo pior nível.

A discussão sobre o "início da vida" é milenar mas o importante é que as pessoas não fiquem presas às suas convicções pessoais oriundas de informações de terceiros mas que busquem respostas. Mas, acima de tudo, é importante respeitar a opinião alheia com humildade. Se em centenas de séculos as pessoas ainda não chegaram a um consenso de onde a vida começa, não será agora.





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